“As redes sociais são altamente viciantes”: psicóloga alerta para o risco das relações com a IA
A psicóloga e escritora Emma Kavanagh não tem dúvidas: as redes sociais são altamente viciantes. Em entrevista à Lusa, a especialista alerta ainda para um fenómeno recente que a preocupa, a forma como as pessoas desenvolvem relações parassociais com a inteligência artificial.
Natural do sul do País de Gales, Kavanagh é doutorada em psicologia pela Universidade de Cardiff e especialista internacional em comportamento humano sob condições de stress extremo. Recentemente, publicou o livro “O rasto do psicopata”, onde explica como lidar com este tipo de personalidade nas relações, no trabalho e na família.
O mundo digital não regula as emoções
Segundo a psicóloga, a presença de outras pessoas ajuda-nos a regular as emoções. “A respiração delas, o ritmo cardíaco, todos esses elementos podem ajudar-nos a regular as nossas próprias emoções”, explica. Por isso, estar perto dos outros faz-nos bem. O mundo digital, pelo contrário, não oferece nada disso. Nesse sentido, Kavanagh defende que deixar o telemóvel de lado, sempre que possível, é uma excelente medida para a saúde mental.
A IA e o charme do psicopata
A inteligência artificial merece, para a especialista, “muita atenção”. Kavanagh descreve uma situação “absurda”: as pessoas criam laços com a IA porque esta foi programada para dizer ao utilizador que tem sempre razão. Concretamente, compara o seu funcionamento ao charme de um psicopata, que diz exactamente o que queremos ouvir e chega a convencer-nos de que estamos a interagir com uma pessoa real.
Todos estamos numa escala
Sobre a psicopatia, a psicóloga explica que crueldade, audácia e desinibição existem num espectro e que todos nos situamos nele. Contudo, para ser considerado psicopata, é preciso ter um nível elevado de crueldade, somado a um dos outros traços. Adicionalmente, a origem pode ser biológica, já que é possível nascer com menor empatia e emocionalidade.
Ainda assim, a educação e o ambiente contam. “É possível aprender a agir em situações sociais e a ser uma boa pessoa”, afirma. Kavanagh recorda que quem acaba na prisão com traços psicopáticos acentuados sofreu, quase invariavelmente, traumas graves na infância.
Como lidar com um psicopata no trabalho
Para quem trabalha com alguém com estes traços, a psicóloga recomenda cautela e que se documente tudo. “Muitas vezes, as prioridades do indivíduo acabam por se tornar as prioridades da organização, por isso é boa ideia identificá-las”, sugere, admitindo que é uma posição precária. Quanto aos recursos humanos, considera que nem adianta recorrer a eles, já que geralmente ficam do lado do psicopata, devido ao seu charme.
Por fim, Kavanagh sublinha que quem é psicopata é também narcisista, e que a mentira é habitual, muitas vezes sem qualquer ganho aparente.
